A missão oficial brasileira à Ásia tende a ir além de anúncios pontuais na área de comércio exterior. Na avaliação de Guilherme Bastos, coordenador da FGV Agro e ex-secretário do Ministério da Agricultura na gestão de Tereza Cristina, a agenda representa uma oportunidade estratégica para ampliar a abertura de mercados agropecuários e fortalecer a reputação do Brasil nos debates sobre transição energética e segurança alimentar.
Em entrevista à CNN Agro, Bastos afirmou que há uma disputa em curso sobre o papel do país no sistema alimentar e energético global. Para ele, o Brasil precisa decidir se continuará atuando como fornecedor secundário de commodities ou se buscará protagonismo na definição das regras do comércio sustentável do século XXI.
No contexto dessa estratégia, a presença brasileira na Índia surge como ponto de partida relevante. Atualmente, a parceria bilateral movimenta cerca de US$ 12 bilhões — montante considerado modesto diante do porte das duas economias — e a meta do governo é elevar esse fluxo para US$ 20 bilhões.
Sob a ótica do agronegócio, o mercado indiano ainda é relativamente pequeno para o Brasil, mas apresenta enorme potencial de expansão. As exportações agropecuárias somam aproximadamente US$ 4 bilhões, o equivalente a 2,5% das vendas externas brasileiras, enquanto toda a Ásia responde por cerca de US$ 90 bilhões.
Apesar disso, o país asiático pode representar o próximo grande salto nas relações comerciais bilaterais. O crescimento populacional, a urbanização acelerada e a demanda crescente por alimentos e energia reforçam as oportunidades, destaca Bastos, que participou de um fórum climático em Mumbai e seguiu para Nova Délhi para acompanhar a comitiva brasileira em encontros empresariais e reuniões com autoridades.
Com a eventual assinatura de acordos e alinhamentos regulatórios, a expectativa é de que o comércio bilateral aumente entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões nos próximos cinco anos. Entre os setores com maior potencial estão óleos vegetais, proteínas animais, fertilizantes verdes, leguminosas (pulses) e biocombustíveis.
Em uma perspectiva de médio prazo, a cooperação pode avançar para a harmonização de regras voltadas ao comércio agrícola sustentável. Já no horizonte mais longo, a Ásia tende a se consolidar como eixo central da diversificação das exportações brasileiras, reduzindo a dependência da China.
No fim das contas, argumenta Bastos, a questão não é se o Brasil crescerá na Ásia, mas de que forma esse crescimento se dará e sob quais regras. O desafio estratégico está em definir se o país será apenas coadjuvante ou protagonista no comércio agrícola e energético global.
Clima e meio ambiente
Para além da ampliação das vendas externas, a viagem ocorre em um momento em que se intensificam os debates globais sobre padrões ambientais e comerciais. Em entrevista à CNN Agro, Guilherme Bastos destaca que um dos temas centrais é a criação de sistemas de medição, reporte e verificação (MRV) de sustentabilidade ajustados à realidade da agricultura tropical, e não baseados exclusivamente em modelos concebidos por países de clima temperado.
Dentro dessa perspectiva, Bastos propõe a formação de “corredores verdes” entre nações do Sul Global, com ênfase na cooperação entre Brasil e Índia. A ideia é impulsionar fluxos comerciais de biocombustíveis, alimentos e insumos produzidos com menor intensidade de carbono, criando parâmetros próprios de sustentabilidade alinhados às condições tropicais.
Ao mesmo tempo, a agenda bilateral dialoga com o avanço de barreiras ambientais em mercados desenvolvidos. Um exemplo é o mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira, implementado pela União Europeia, que pode impactar exportações agrícolas e energéticas ao incorporar critérios mais rígidos de emissões.
No campo tecnológico, o avanço da infraestrutura digital indiana também é visto como elemento estratégico. As chamadas infraestruturas públicas digitais (DPIs) vêm ampliando a capacidade de monitoramento e organização de dados, o que, segundo Bastos, pode elevar o nível de transparência e rastreabilidade das cadeias produtivas brasileiras.
Em termos práticos, essas ferramentas digitais tendem a facilitar a comprovação de critérios ambientais e sociais exigidos por compradores internacionais. “Na prática, isso pode destravar mercados que exigem certificações cada vez mais rigorosas”, resume Bastos.

