Símbolo do design brasileiro e presença marcante nas calçadas por décadas, o orelhão começa a desaparecer do cenário urbano nacional. A retirada dos telefones públicos deve ganhar ritmo a partir deste ano, impulsionada pelo fim do regime de concessões da telefonia fixa no Brasil.
Apesar da queda acentuada no uso com a popularização dos celulares e da internet, ainda existem cerca de 38,3 mil orelhões em funcionamento no país, concentrados majoritariamente no estado de São Paulo. Em 2020, esse número chegava a 200 mil aparelhos, sendo aproximadamente 150 mil pertencentes à operadora Oi.
A redução está diretamente relacionada à mudança no modelo jurídico do setor. Com a aprovação de uma lei em 2019, a telefonia fixa deixou de ser prestada por meio de concessões e passou ao regime de autorizações, encerrando diversas obrigações impostas às operadoras quando o serviço era considerado essencial.
Segundo o presidente da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), Carlos Baigorri, com o fim das concessões, as empresas não são mais obrigadas a manter os orelhões, exceto em locais onde não haja outra alternativa de comunicação por voz.
Atualmente, cinco operadoras ainda são responsáveis pelos telefones públicos: Vivo, Oi, Claro, Algar e Sercomtel. A tendência, no entanto, é de desativação gradual da estrutura.
A Vivo informou que iniciou a migração para o regime de autorização no fim do ano passado e começará a retirar os orelhões ao longo de 2026. A empresa mantém cerca de 28 mil aparelhos em São Paulo, mas afirma que o uso caiu 93% nos últimos cinco anos. Em municípios onde é a única prestadora, os equipamentos serão mantidos até o fim de 2028, conforme determinação da Anatel.
Já a Oi, que deixou de operar como concessionária em 2024 e enfrenta sua segunda recuperação judicial, reduziu drasticamente sua base. De 151 mil orelhões em 2020, restam atualmente 6.707 em operação, sendo que 40% estão em manutenção. A empresa afirma manter os aparelhos apenas onde há exigência regulatória ou ausência de alternativas de comunicação.
A Algar também anunciou planos de desativação. Dos 561 orelhões ainda ativos, mais da metade registra menos de uma chamada por dia. A operadora informou que a retirada será feita de forma sustentável, com manutenção dos equipamentos apenas em regiões onde ainda são a única opção de contato.
A Claro, que opera 1.772 orelhões, migrou para o novo regime no ano passado. Já a Sercomtel, que atua no Paraná, mantém atualmente 596 aparelhos, após sucessivas reduções.
A mudança marca o encerramento de um modelo iniciado com a privatização do sistema Telebras, em 1998, quando as concessionárias eram obrigadas a garantir o acesso universal à telefonia. Hoje, o foco das operadoras está na expansão da banda larga, da fibra óptica e das redes 4G e 5G.

